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Maratona pela Paz: a primeira do mundo dentro de uma prisão
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Maratona pela Paz: a primeira do mundo dentro de uma prisão

Em poucas palavras

Duas edições (março de 2019 e novembro de 2022) em que pessoas em situação de cárcere, vítimas, pessoas em liberdade, familiares, maratonistas profissionais e funcionários judiciais correram juntos. Fiscalizadas pela Federação de Maratonistas. A terceira edição está em preparação.

A Maratona pela Paz é um dos marcos fundacionais da Cooperativa Liberté: duas edições, separadas por três anos e meio, nas quais aconteceu algo difícil de explicar sem ter visto. Pessoas em situação de cárcere, vítimas de crimes, pessoas liberadas, familiares, maratonistas profissionais e funcionários judiciais ficaram juntos na mesma linha de largada e cruzaram juntos a mesma chegada. Até onde sabemos, foi a primeira maratona do mundo realizada dentro de uma prisão com essa composição humana.

Como nasceu a ideia

Depois de uma série de jornadas de "Portas Abertas" na Unidad Penal N°15 de Batán, Pampa teve a ideia de fazer uma "Maratona pela Paz". Ele estava inspirado em um evento esportivo realizado na província de Corrientes organizado pela Víctimas por la Paz. Mas não queria apenas copiar a ideia: na Liberté, a maratona tinha que servir para algo mais do que correr — para que vítimas, pessoas em situação de cárcere, familiares e funcionários pisassem o mesmo asfalto.

Mas antes foi preciso esperar. Quando Pampa apresentou a ideia ao Dr. Mario Juliano — já formalmente padrinho da Liberté —, o juiz se mostrou reticente no começo. Ouviu, e fez esperar: «vamos vendo», disse, naquele tom medido que lhe era característico. A ideia ficou suspensa enquanto avançava outro projeto que Pampa também havia proposto: pintar um mural enorme na parede do pasoduto que se via da oficina, aquele que viria a ser El Mural Más Lindo Del Mundo. E foi aí, ao terminar esse mural, que Mario se aproximou e, quase em voz baixa, disse a Pampa: «se você topar, vamos organizando a maratona».

Março de 2019: a primeira largada

A primeira Maratona pela Paz foi disputada em março de 2019, dentro da Unidad Penal N°15 de Batán. O percurso foi traçado pelas ruas de circulação interna do presídio, de ida e volta. A largada partiu da Liberté e a chegada e o ato de encerramento aconteceram na Comunidade Pastoral Universitária. Houve música ao vivo, premiação e uma série de oradores que coincidiram num estado de emoção muito marcante, especialmente quando chegou a vez do presidente da Federação de Maratonistas, cujos diretores haviam viajado para fiscalizar a competição.

Nesse mesmo dia, como parte da programação cultural que acompanhou a maratona, foi inaugurada a mostra de pinturas «Enamorate si podés» da artista Betina Ferrara.

Na maratona não participaram apenas integrantes da Liberté, seus familiares e outras pessoas em situação de cárcere da UP15. Também correram funcionários judiciais, servidores penitenciários e os próprios maratonistas profissionais que vieram para fiscalizar. Muitos competiram usando as camisetas doadas da maratona inspiradora — camisetas que os participantes guardam, até hoje, como verdadeiros tesouros.

Fiel aos princípios da Liberté, a maratona foi inclusiva por design: cada participante, agrupado por categoria, mediu seu próprio nível de desempenho com quem estava em situação física semelhante. Algumas pessoas, inclusive, tiveram a oportunidade de participar no modo caminhada.

O dia em que Diana chegou a Batán

Àquela primeira maratona veio, pela primeira vez na vida, a Dra. Diana Márquez. Era sua primeira visita à prisão de Batán. Ali conheceu a Liberté, e o que viu mudou sua agenda. Três anos depois, seria co-criadora do Restaurante Punto de Paz — o primeiro restaurante do mundo gerido por pessoas em situação de cárcere — e hoje é secretária da Cooperativa Liberté. A maratona foi a porta: a aliança com Víctimas por la Paz já havia começado com o mural, mas foi naquele dia — março de 2019 — que Diana cruzou pela primeira vez os muros de Batán e começou a se tecer o vínculo do qual nasceriam vários capítulos compartilhados — entre eles o Restaurante Punto de Paz

2019, ano coral

A maratona não foi a única coisa importante que a Liberté abraçou naquele período. Em 2019 estavam começando, com suas naturais controvérsias, os Comitês de Prevenção e Resolução de Conflitos: Gabinete, Comitê e a Assembleia conhecida como Batán rinde cuentas. Nesses espaços participavam referentes da Liberté junto a servidores penitenciários das áreas administrativas, o Chefe do SPB e até o Ministro de Segurança da Província. E em dezembro desse mesmo ano foi inaugurado outro marco da mesma série: El Mural Más Lindo Del Mundo, pintado em 19 de dezembro de 2018 na parede do pasoduto que os trabalhadores da Liberté viam todos os dias durante toda a jornada.

19 de novembro de 2022: a segunda edição

A segunda Maratona pela Paz foi disputada em 19 de novembro de 2022, organizada novamente pela Víctimas por la Paz e pela Liberté, com as mesmas características da primeira: maratonistas profissionais, pessoas em situação de cárcere, familiares e funcionários do Poder Judiciário correndo juntos. Desta vez a Liberté já havia se mudado para seu Território atual, e a maratona foi usada também como ocasião para homenagear o Restaurante Punto de Paz — que naquele momento já funcionava há meses dentro da Unidade. A largada e a chegada foram atos realizados integralmente na instituição cooperativa.

Correr para reparar

Se o restaurante nos ensinou que uma mesa pode fazer o que nenhuma cela consegue, a maratona nos ensinou algo paralelo: a rua também repara. Vinte e um quilômetros corridos em paralelo entre uma vítima e uma pessoa em situação de cárcere mudam a distância entre as duas. Depois, já não é a mesma distância. Por isso — junto à Víctimas por la Paz e à Federação de Maratonistas — estamos avaliando realizar uma terceira edição.

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